Blog do Xico Malta

Que Rei sou eu?

Posted in Do Malta by xicopati on 22/02/2013

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A revista nova-iorquina “Time” colocou em sua capa o jogador Neymar com o seguinte título: Next Pelé.

Ela foi enfática ao oficializar o jovem jogador do Santos como o substituto do eterno Rei do futebol.

Neymar se juntou ao seleto grupo de brasileiros que foram capa da revista semanal mais conhecida do mundo. Com ele, somam-se oito os brasileiros que tiveram tal honraria: seis Presidentes da República: Júlio Prestes, Getúlio Vargas, Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio quadros e Artur da Costa e Silva, um diplomata Osvaldo Aranha e agora o jogador Neymar.

A mesma revista que gerou polêmicas relevantes no passado ao colocar Adolf Hitler como o homem do ano em 1938 e o ditador Stalin como o homem do ano em 1939 e 1942, agora afirma categoricamente que o futebol terá um novo Monarca.

Messi e Cristiano Ronaldo tornaram-se de repente súditos do brasileiro. Seguindo a lógica aristotélica, Maradona, Cryuff, Garrincha, Tostão, Zico, Rivelino, Gérson e Zidane também deverão render reverência ao atual craque santista. Algum locutor brasileiro irá chamar o santista de “Ele” como fazia Walter Abrahão cada vez que Pelé tocava na bola.

Presidentes, Reis e Primeiros ministros virão correndo para o Brasil para assistir aos jogos do Santos de Neymar. Guerras serão interrompidas para ver o Next Pelé e juízes serão expulsos de campo quando expulsarem o novo Rei.

Pena que faltou para a nova Majestade um Nelson Rodrigues que o chamasse de Rei aos 17 anos de idade antes da Copa do Mundo na Suécia e não uma revista norte-americana que conhece o esporte bretão como soccer ao invés de Football.

Leia a primeira crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé DE 25 DE MARÇO DE 1958, Tornieo Rio-São Paulo, Santos 5 x 3 América no estádio do Maracanã.

Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Uma resposta

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  1. Otavio Silva Guisard Faria said, on 27/02/2013 at 11:22

    Fala Xico, não li a reportagem, mas acho que ele está longe, não, léguas de distância de Pelé. Pelo tudo que já li sobre o esporte das multidões, falta uma detalhe fundamental para ele ser grande. Neymar Junior precisa virar homem. Isso vale para dentro e fora de campo. Longe de mim recriminar as baladas ou pregar o Politicamente Correto . O que me irrita é falto de posiocinamente dele, sobre qualquer assunto fora o mundo do futebol. Talvez falte ele ir para uma “guerra”, um Penarol X Santos de 1962 ou Paraguai x Brasil 1969, ou precise parar de ser mimado por muitos ou criticado ferozmente por alguns. Além disso, Neymar precisa mostrar que a sua inteligente também existe fora das quatro linhas, Só assim ele poderá fazer parte dos Olimpo do Futebol Mundial com alguma relevância por algum historiador daqui a mil anos.
    A revista faz uma previsão que para bem do futebol, principalmente tupiniquim e do Wagner Ribeiro, aconteça. Sinceramente, eu não acredito nisso. Com tanto mimos e puxa-sacos a sua volta, as pessoas tendem adiar a chegada da maturidade para algum momento, bem longe dos 20 anos
    Abraços


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