Blog do Xico Malta

Pierre Ndaye Mulamba: O ouro esquecido

Posted in Do Malta by xicopati on 20/12/2010

Aproveitando que o futebol da República Democrática do Congo está em alta, graças ao Todo Poderoso Mazembe, gostaria de retratar um dos seus principais personagens, o senhor Pierre Ndaye Mulamba.

Quando se fala em Pierre Ndaye Mulamba, a primeira coisa que vem em mente é de estar diante de um homem vítima de uma assombrosa iniqüidade.

Vejamos um pouco de sua triste e injusta história de vida.

Na Copa Africana de Nações

Como jogador de futebol, Mulamba despontou para o mundo no ano de 1974.

Estrela dos Leopardos do Zaire (hoje República Democrática do Congo) (assim são chamados os jogadores da seleção), Mulamba marcou 9 gols na competição. Quatro gols só na final contra a Zâmbia.

Mutumbula “Volvo”, assim era conhecido em seu país, ainda é na história do futebol africano o maior goleador em uma  Copa Africana de Nações.

Depois da incrível conquista, o então presidente do Zaire, Mobuto Sese Seko, prometeu aos jogadores e a comissão técnica mundos e fundos. O ditador pediu ao povo dinheiro para recompensar os bravos leopardos pela brilhante conquista.

No entanto, esse dinheiro nunca chegou ao bolso dos atletas. Tal fato provocou revolta e desolação, prejudicando a campanha da seleção na Copa do Mundo de 1974 na Alemanha.

O vexame na Copa do Mundo de 1974

Seria a primeira e única vez em que a seleção do antigo Zaire iria disputar uma Copa do Mundo e a primeira vez que uma seleção da África negra iria participar desta competição. Tudo isso graças aos gols de Mulamba.

A seleção da África equatorial caiu no grupo B onde tinha Brasil, Escócia e Yugoslávia.

Desapontados com a atitude do ditador, os leopardos desembarcaram na Alemanha totalmente desmotivados. Perderam todos os amistosos de goleada, algumas semanas antes da Copa começar.

Ainda pra piorar a situação, Mobuto obrigou o técnico da seleção a levar consigo feiticeiros ao invés de médico e fisioterapeuta.

No jogo de estréia, os leopardos perderam da Escócia por 2×0.

No segundo jogo, a seleção do Zaire enfrentou a Yugoslávia e perdeu por 9X0! Mulamba estava condenado de vez a ser vitima da injustiça. Naquele fatídico jogo, o craque foi expulso por causa de um chute dado na bunda do árbitro, porém quem dera o chute foi seu companheiro Ilunga Mwepu.

No jogo contra o Brasil, sem Mulumba, os leopardos deram adeus a Alemanha perdendo por 3X0.

Eliminados ainda na primeira fase e sem marcar nenhum gol, o Zaire foi embora sendo a grande vergonha daquela Copa.

O ataque de Mobuto

Em 1994, depois de já ter pendurado a chuteira há um bom tempo, Mulamba foi convidado pela Confederação Africana de Futebol para receber uma condecoração na Tunísia, durante a Copa Africana de Nações.

O craque, emocionado, teve o prazer de receber das mãos de Issa Hayatou uma medalha de honra por tudo o que ele fez pelo futebol africano.

Na volta pra casa, o Ministro do Esporte pede para que o craque ofereça a medalha que ele havia recebido. Porém Mulamba inconformado , rejeita o pedido. Isso já era uma pratica comum em seu país. Mobuto tomava pra si todas as medalhas conquistadas pelos esportistas.

Dessa vez, Mulamba tinha a esperança de guardar a ilustre condecoração pra si, sua única recompensa, seu único reconhecimento.

No entanto, o craque foi surpreendido às 3h da madrugada, em sua residência, por agentes de Mobuto.  O ditador queria a todo custo a medalha do craque e seu dinheiro.

Mulamba foi atacado de surpresa pelos agentes. Seu filho Tridon foi agredido brutalmente e não resistiu aos ferimentos. Mulamba foi gravemente ferido e por pouco não morreu. Depois de vegetar por algum tempo no hospital, o craque conseguiu escapar por milagre, apenas com deficiência física em uma de suas pernas.

Seu medico Emmanuel Paypay, comovido, lhe ofereceu um tratamento na África do Sul e o craque permaneceu por lá com o status de refugiado.

Depois de sair do centro de reabilitação, ele ficou hospedado na casa de vários refugiados políticos congoleses que como ele fugiram do regime ditatorial de Mobuto.

Pierre Mulamba também viveu durante anos em townships (favelas) da Cidade do Cabo, tentando sobreviver como flanelinha.

Em 1998, durante a Copa Africana de Nações, em Burkina Faso, a rádio nacional congolesa anunciou seu falecimento. A informação foi desmentida algumas horas mais tarde. Os dirigentes da Confederação africana de futebol descobriram então que o jogador estava vivendo como mendigo pelas ruas da Cidade do Cabo e decidem lhe fazer uma doação de sete mil dólares. Este dinheiro nunca chegou até ele.

Em 2005, Joseph Blatter concede ao craque uma medalha do centenário da federação. Uma condecoração que não alterou em nada a sua sorte.

Hoje em dia, casado pela segunda vez com uma sul africana, Mulamba continua vivendo em um situação de extrema precariedade.

Sua história trágica é aquela de um Deus do futebol africano que se transforma em um mendigo, simbolizando as complexas relações que misturam o futebol, política, dinheiro e os direitos humanos.

Trechos do documentário sobre a vida de Mulamba, forgotten gold

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